01/04/2012
Na manhã deste sábado foi feito um bloqueio na
estrada que dá acesso aos sítios. Operários foram ameaçados de demissão
por participar de greve
Sindicato tenta desmobilizar greve
Os operários da Usina Hidrelétrica Belo Monte continuam em greve por
melhores condições de trabalho. As paralisações, que começaram na
quarta-feira, 28, em apenas um canteiro, atingem neste sábado, 31, todas
as unidades da obra. Segundo contagem dos trabalhadores, ao menos 80%
dos 7 mil operários – novo número oficial informado pelo Consórcio
Construtor Belo Monte (CCBM) – já aderiram a greve por melhores
condições de trabalho. A morte de um operador de motosserra esta semana
também teria contribuído para que se iniciasse o movimento grevista.
Na manhã deste sábado foi feito um bloqueio na estrada que dá acesso
aos sítios. Apenas os ônibus que fazem o translado dos trabalhadores
foram retidos.
“Estamos conscientizando os companheiros sobre o que está acontecendo
aos poucos”, conta Fábio Kanan, armador do canteiro de obras Canais e
Diques. “A gente explica que não existe baixada de seis meses em nenhum
lugar, que não dá pra receber só mil reais por mês. O problema é que o
sindicato não está do nosso lado, estamos isolados”, explica. Por conta
disso, os trabalhadores lançaram, hoje, um abaixo-assinado para que o
Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada do Pará (Sintrapav),
ligado à Força Sindical, não seja mais a entidade representativa da
categoria.
Sindicato
Na quinta, 30, o sindicato tentou realizar uma reunião em praça
pública com os trabalhadores, mas houve tumulto. “O presidente do
sindicato disse que quem quer fazer greve é vagabundo, baderneiro”,
relataram. Os trabalhadores também acusam o sindicato de não acompanhar e
cobrar o cumprimento das pautas o acordo coletivo firmado no final do
ano passado, e de não tentar reverter as demissões ocorridas nas greves
anteriores.
Os trabalhadores temem pela estabilidade de seus empregos. “Nós fomos
ameaçados de demissão. Os encarregados disseram que, se a gente fizesse
greve, seríamos demitidos. Como já aconteceu“. Durante a greve, havia
diversos funcionários de “farda azul” (cor do uniforme das chefias)
filmando e fotografando ostensivamente os operários. Segundo os
trabalhadores, o RH da empresa esteve reunido pela manhã, checando as
fotografias e vídeos registrados durante as manifestações, para
identificar as lideranças do movimento.
Pauta
Segundo o documento redigido à mão pelos grevistas, as reivindicações
são: equiparação salarial, redução do intervalo da baixada (visita à
família, quando são de outras regiões) de seis para três meses, melhores
na comida e água, o fim do desvio de função, baixada para ajudantes de
produção (cargo mais baixo na hierarquia da obra), capacitação para
funcionários, plano de saúde, aumento do cartão alimentação (hoje, em
cerca de 90 reais), aumento de salário, pagamento de horas extras aos
sábados, transporte digno, a “troca” do sindicato representativo e o
direito à baixada para os trabalhadores que decidirem, por conta
própria, morar fora dos canteiros de obras. No final do documento, uma
observação: “não atendendo as reivindicações, mantém-se a paralização”.
Segurança
A morte de um trabalhador na última semana também levou a
questionamentos mais fortes sobre as condições de segurança nos
canteiros de obra. De acordo com os operários, os problemas são graves e
a morte do operador de motossera não foi um fato isolado. “Ja ocorreram
outras mortes nas obras e ninguém ficou sabendo”, denuncia um dos
trabalhadores do canteiro Belo Monte. “Eles [a empresa] mandam o corpo
pra família, porque eles moram fora, e ninguém fica sabendo de nada.
Eles abafam. Mas não conseguiram abafar agora porque o peão era de
Altamira”.
Texto: Ruy Sposati
Fotos: Pierre André Le Leuch e Ruy Sposati
Fonte: Movimento Xingu Vivo